Saturday, September 15, 2007

Instruções para fazer a barba

Antes, forme com as duas mãos, algo parecido a uma concha, e deposite nela a bagatela de 300ml de água, que deve ser imediatamente levada ao contato da face, a fim de exonerá-la das impurezas propostas pelo ar.

Para fazer a barba, comece primeiro pelos olhos, mantendo-os esbugalhados, com atenção voltada aos movimentos da lâmina durante o processo de raspagem dos pêlos, a ser executado de forma linear, evitando assim, movimentos circulares.
Utilize o creme Foamy da marca Gillete, ou outro qualquer, agitando - os sempre antes de usar, com propósito de que se obtenha uma espuma rica e consistente, para um barbear rente e confortável.

Tire o excesso de pêlos da lâmina, batendo-a junto da pia, ação que deve ser repetida quando houver necessidade, ou quando se busca pelo entupimento do ralo.
Tente não lidar com julgamentos de beleza. Segundo Nietzsche, há miopia naqueles que deste modo o fazem. Se de tudo, não conseguir, mude de nome pra Narciso.
Caso se sinta estranho após o barbear, não se apavore. Será apenas mais um sinal de que você não se conhece.

Contudo, para fazer a barba, faça você mesmo. Afinal de contas, aquele que paga por tal serviço, não tem a capacidade de mostrar a cara.

Sopinha de Palavras

Precipitado: aquele que cai no precipício.
Precipício: princípio de todo precipitado.
(Edifício de cem andares de onde se cai de cima).
Precipitado: aquele que cai mais rápido. Nem sempre ganha o mais rápido.
Precipício: quando se chega ao fundo, tudo acima é maravilha.
Sete maravilhas do mundo.
Sete dias de queda.
Precipício (Edifício de cem andares).
(Abismo, abismo, olha o disco arranhado, abismo social).

Precipitado nasceu o mundo.
Precipício foi o mundo.
Princípios, nunca teve.
Abismo, abismo, olha o disco arranhado.

Na Rua do Sol

Na rua do sol. Não vá achar você que na rua do sol aconteça somente coisas belas, um dia alguém acorda ruim e, tragédia, tragédia, tragédia, tiros na multidão, na rua do sol,
o homem e sua criação, um fuzil e tiros certeiros, o dedo indicador puxando o gatilho, sangue ao vento e corpos ao chão, chamem a ambulância que hoje a pele foi perfurada e sua validade agora vence para a morte. O genocida entra numa espécie de disco voador e some, mas tudo é registrado pelas câmeras de segurança e as autoridades responsáveis pela averiguação do caso afirmam que em breve o terão solucionado.

O motorista do automóvel, após 1h17min preso no engarrafamento chega, às 06h45min na rua do sol, e lá trabalha todos os dias, e todo dia é assim: engarrafamento e 06h45min na rua do sol. Hoje não foi diferente mas o amanhã há quem desconfie. O motorista cai às 06h45min, pontualmente, morre, perde para a vida, vira estatística, o oitavo corpo numa fila de trinta, Casos de um Genocida, na rua do sol.

06h45min. Há uma escola na rua do sol que atende toda a cidade: crianças, jovens, adultos e idosos que tenham algo a compartilhar com os professores e contratados. É sabido que deus escreve certo por linhas tortas e hoje ninguém foi à aula. Motivo: paralisação, por cumprimento de acordos que o governo ignora. Tiros na multidão, em frente à escola.

Na rua do sol, onde os carros não param, sempre, nunca há remédio nem choro, acontece coisa diferente, alguém acorda ruim, descontente, sorriso não há que lhe sirva, a não ser o seu enquanto atira, aleatoriamente, tem munição de sobra, tragédia, tragédia, tragédia. O genocida entra numa espécie de disco voador e some.

O prefeito renuncia ao cargo, borrado de medo, prefeito de merda, perfeito. Os moradores abandonam a cidade, que é invadida por ufólogos e outros curiosos, jornalistas vêem no encalço. O resto do mundo precisa saber dos fatos. Na rua do sol.

Saturday, May 12, 2007

[Criação]

Rubra carne clandestina
Hemorragia capital
Crime, medo e delírio
Aversão a moral

Sete vidas
Sete palmos
Sete lamentações

Almas podres
Rush das almas
Em busca de satisfações

Sete léguas
Sete caminhos
Sete crimes capitais

Inquisição
Tortura
Morte em nome da paz

Sete injúrias
Sete fugas
Sete alucinações

Deus
Comércio
Fortuna
Sete dias que não voltam mais

[Crime sem castigo]

Marginal,
Aquele que a lei protege
Marginal,
Crime do colarinho branco
Marginal,
Que vota por aumento do próprio salário
Marginal,
De fala rebuscada a um povo sem glossário
Marginal,
E a leptospirose repousa no cenário dos engravatados
Marginal,
Por que assim devo chamá-lo
Marginal.

- Voz no hemisfério -

Eu, o passo impreciso, busco
Tu, melodia de um chão de folhas secas

Eu, o remédio da cura, alastro
Tu, sentimento dúbio de minha natureza

Eu, o feto maduro, caio
Tu, reverbera-me em ave cancioneira

Eu, o jogo do joio, trapaceio
Tu, amigo de minha (in)certeza

Eu, o centro de tudo, inseguro
Tu, segura-me com mãos certeiras

Eu, o verbo irregular, me ausento
Tu, colore-me no “eu” dos teus pensamentos

Eu, a carne do tecido, moída
Tu, tempero imperativo que me cerra a ferida

Eu, homem descabido, vivo
Tu, faz-me companhia
Bastou que a embarcação resistisse às correntezas do rio saudoso, para quando, no desague ao mar, viesse um golfinho tombar o barco. Sabiam nadar as lesma. Só não sabiam do sal.

Thursday, December 28, 2006

Diagnosticaram gota
O homem comprou um guarda-chuva
A mulher correu a uma farmácia

Sunday, December 17, 2006

Quando o homem fez-se fruto, a terra cuspiu amarga.
Cuidado aos ouvidos
Falar hoje em dia se tornou coisa complicada. Não digo aqui de “fala” rebuscada, linguagem bem elaborada, encontrada nos bares e boêmia, encontrada em dicionários, nas praças, reduto de mendigos. Falar hoje em dia requer um advogado.
O orangotango processou seu dono, por tê-lo chamado de macaco, o peixe, quem o denominou piranha. Ainda não chegou, mas a tartaruga também encaminhou seu pedido. Não agüenta mais ser tratada de burocracia. Demorou, mas hoje em dia nossa lei não hesita. Falar, só o que ela permite.
E você não se assuste se amanhã ou depois fores acionado na justiça por um pernilongo, a reclamar ter sido agredido em plena transfusão de sangue. Sobre seus direitos, espere até que um papagaio o xingue. Mas se certifique, pois não existe em lei pena prevista aos animais.

Saturday, December 16, 2006

Na sola dos pés dela, um olhar. E o chão foi ficando melhor.
A vingança é um prato que se come todos os dias.

Tuesday, December 12, 2006

“Leve a vida leve”

Se me pedisse por emprego ou ocupação, a ela daria meus cartões de crédito. “Maria, sou seu cão”. “Porque a vida é agora”, “Para você fazer a viagem perfeita” “Não lhe falta mais nada”, “Ter tudo o que você deseja”. “Porque a vida é agora”.
Sei que existem coisas que o dinheiro não compra, como também sei que para todas as outras existe algo dando sopa em algum de meus bolsos, frios por não terem o contato de suas mãos (sensíveis ao cloro, água sanitária, sabão). Maria, minha ex-empregada de avental. Volte pro lado de cá. Faça, desfaça, tão somente minha cama, minha barba, meu tesão, minhas esquisitices afloradas se te vejo com espanador e pose. “Muito mais vantagens para você”. Posso tudo lhe comprar. “Ter você não tem preço”. Quando a fatura dos cartões chegarem, você já terá sido minha.
...Existem coisas que o dinheiro não compra. Para todas as outras, finja ter dinheiro. Maria, hoje vamos voar! Azar do (s) banco (s).

Sunday, December 10, 2006

Menininha

Quisera ser princesa ou grã-fina, mas nasceu Menininha, maçã de carne, de pecado, mais um fruto do Estado. Menininha, que os olhos do mundo só fazem comer. Comer e cuspir. E comer. Menininha dada aos desabafos, aos bafos, aos sem desodorantes, sem casas, sem camas. Menininha piranha. Dada ao dinheiro, às pratas de centavo, ao pão da padaria. Menininha. Que no barraco a esperam irmãos, mãe, filhos, o marido desempregado que a evita olhar na cara. Tem vergonha da panela vazia, de ser homem e inválido, “meninin” de Menininha. Que todo dia bate ponto na esquina do Acaso, caída num mundo errado, leitura de um livro errado, de autor equivocado, que nunca leu contos de fada. Mas hoje a sorte lhe sorri -, Menininha. Não em pedido de que levante a saia, rasgada, com buracos de traça, raça, qual a sua? Basta que conte sua história e o estranho vai embora, enchendo Menininha de dinheiro, caso goste de suas palavras. -Tarefa fácil quando o que satisfaz é sofrimento. E Menininha vai pra casa (pro barraco), voando baixo, como pássaro, canta, Menininha. Comprou carne, frauda descartável, um perfume de nome Liberdade. Presenteou a todos, Menininha, que agora se lava, banho frio, de cavalo, quando tem água, cansada, deita-se, perfumada, ao lado do marido. Dorme escassas horas. Acorda, acorda na esquina para mais um dia de serviços. Dessa vez não encontra pelo estranho.
...Levanta a saia e finge que gosta, finge e vai à padaria, Menininha, em mais um dia de folia. Capítulo de hoje: “O dinheiro só deu pro pão dormido.”.