Tuesday, November 28, 2006

O velho olhou a escada e parou.
Devaneios de um boêmio:
- amanhã tem mais!

Friday, November 24, 2006

Thursday, November 23, 2006

- O verbo e a boca -

O verbo fez-se inimigo e foi sendo conjugado:
"Morte a boca sem palavras" - ecoava do alto da pirâmide.
Deixai-a sempre pequena, piedosa e esperançosa.
Que do alto da sua glória alcance somente os rodapés.
Que seja areia no deserto, sem sombra, sem lamentos.
Grande seja sua fé, ferrada e má olhada.
Pois a espera sempre tarda a quem nada oferece.

A boca tentou estudar o verbo e adeus deu ao mundo
Cobiçava enxergar alem dos olhos, feridos e mal tratados
Mas seus ossos haviam sido atrofiados
E seus passos tropeçavam por entre leis que a diminuíam.

O verbo enviou a boca à guerra:
"Defenda sua bandeira" - dizia do alto da pirâmide.
Abata com sua glória o nefasto obstáculo
Mas volte a sua pátria como herói que sempre foi.

A boca morreu na guerra
Cega de saber o que lá ruminava.
O verbo foi logo criando:
- Mandai mais bocas que morram por nós nas guerras
A vida como ela é

Tida como a mais importante decisão tomada pelo distinto grupo dos países desenvolvidos, a fome foi curada em meio a mingua daqueles igualmente miseráveis - descobriram os cientistas que os quadrúpedes, peixes, e aves de abate têm alma. “Horror, horror, horror” -, pensam aqueles que antes se deleitavam por um bocado de vitelo sobre a mesa, qual todo bom cristão, após as orações.

Outrora afirmou os líderes destes países, que além de presente no mundo da costura, a anorexia se fez moda aos miseráveis, que orgulhosamente ostentavam a única coisa que tinham: seus ossos. Não que isto não seja verdade, gosto há para tanto. Uns, desjejuam pela manhã ao sorverem do próprio mijo, sob promessa de saúde - para dar, vender, emprestar. Túlio, homem de bem, abdicou-se da tão cremosa margarina All Day, alusão festiva aos mais belos padrões familiares - mulher e filhos o abandonaram. Entretanto, não percamos o foco, o assunto aqui tratado constitui na erradicação da fome em escala planetária - e eu que pensava que tal acontecimento não passasse de ideologia romântica.

Maomé afirmava aos muçulmanos que os maus espíritos habitavam os porcos, pretexto pelo qual tal carne foi sendo deixada de lado, e a expectativa de vida, aumentando. “Maomé, o profeta” - prediziam. Ora, se comiam carne mal passada, se se comiam. Ademais, alegar que a ingestão desta provocava milhares de mortes prematuras não haveria de despertar atenção daquela estirpe, para a qual, e não diferentemente de outras, toda e qualquer explicação deveria ter princípios advindos de outros mundos: religião. E Maomé, que lhes deu vida longa, ascende aos céus.

Como se sabe, ou como se deveria saber - saber é coisa penosa -, contudo, voltemos ao foco. Como se sabe - para ser redundante -, em publicação na revista Science my God, cientistas do Instituto Charles Xavier - qualquer analogia com Chico Xavier pode ser explicada porque este usava perucas. Sobremaneira, deixemos de complicação. Cientistas do Instituto Charles Xavier, após meticulosos estudos por onde evocavam o profeta Maomé, concluíram: “assim como os homens que ostentam riqueza, os animais têm alma”. Bastou para que arrumassem outro substituto como carne.

No açougue Delicatessen, posteriormente à engorda, são pendurados e destrinchados todas as manhãs, crianças, homens, mulheres, que tiveram a fome curada.
Abafar Boa Cordialidade
Dizimar Encantos Familiares
Gabar-se Hierarquicamente
Inútil Justiça Ketchup
Leviano Milagre Nuclear
Orbe
Panteísmo Quitado
Resenha Sarcástica Traumática
Utopia
Vaivém Water-Closet
Xenologia Yuppie
Zoeira aerofágica.
Leve leva o mundo leve
Pedaço leve
Pluma desejo

Breve constância
Mudança
Sempre única certeza breve

Leve vento leva
Leitura tediosa
Mente indigesta

E o tempo não perdoa
Nem os cabelos dos bonecos
Se escrevo "errado" é porque quero
Como se escrevesse "João"
Auto-flagelação desaforada

A viagem é constante e rica em surpresas, boas ou não, dizia Fininho, ao perceber que uma figura inusitada, estampada na porta do guarda-roupa, o reparava. “Porta da Alma”, devidamente apelidado, propiciava uma realidade diferente. Deixou-se descobrir aos olhos viciados, programados e apoiados em algo denominado razão, “fonte detentora de todo conhecimento”. Por qual motivo, pensava eu, Luiz Gonzaga, ele teria morrido sorrindo? A resposta pode aparecer sob diversas formas. Todavia, a mais plausível, analisando o contexto histórico, vem a ser: não há respostas. Nada pode ser nada, nada pode ser tudo, tudo pode ser tudo, tudo pode ser nada. Viva ou cague sua história. As conseqüências, ignorando os valores morais, implicam a toda humanidade. Dito isto, eu, agora João Donato, vago na incerteza dos meus olhos. E o que vejo? Vejo tudo se encontrar no meio do nada. Pílulas da mentira dão-me sensação de liberdade. Seria então o livre-arbítrio somente uma meia verdade, ou estaria eu, atualmente Poeira Cósmica, delirando? Os fatos, raramente me importam. Os espelhos? Quebrem todos eles, reveladores insanos ao diagnosticarem meu ser. Porta da alma continua inerte. Estaria ele vagando em pensamentos? Fininho, mais uma vez fizera minha cabeça. Oh, Fumaça, deixe-me tragá-la no descortinar bombástico de minhas derradeiras palavras: “há mais de dois mil anos venho confirmando ser a perfeição entre os simulacros. Continuem vocês, dizimistas alienados, envoltos na arte do charlatanismo, clamando por minha vinda, amém”.

A busca de si

Era apenas um óculos ao chão e, sem os olhos, sem a mente por trás dos olhos, de nada serviria. Mas ia por seu caminho um macaco, execrado do bando que pertenceste por não ter a destreza de ser como os demais e equilibrar sobre as árvores. Ia, tropeçando pelas pedras e outros objetos avessos à realidade que outrora vivesse. Vagava e só. Invadia-o algo estranho, que lhe roubava o instinto e pavor causava; não sabia o que era, não tinha consciência de si. Às vezes dirigia os olhares ao céu, nem um deus que lhe forjasse identidade, no entanto, num desses momentos, ao voltar de devaneios, o óculos encontrou. Examinou-o com as mãos, buscou sentir seu cheiro e novamente deixou-o ao chão. Naquele instante a noite se fez, recostou próximo aos óculos e dormiu.

Na manhã seguinte acordara ao sol, há muito não caçava, de modo que começava a fraquejar. Tentou firmar as pernas e um filete de sangue surgiu junto à virilha. Ferido, e sentia que a hora chegava, morreria caso nada de comer encontrasse, e presa fácil era, bastasse o animal que fosse cruzar teu caminho. Os raios solares incidiam sobre os óculos e toda aquela luminosidade refletora criou gosto na mente do macaco, um desejo original, sem precedentes. Com o apoio das mãos o vestiu: luz, muita luz, imagens, informação. Um novo mundo passou a ser permitido e tanto eram as disposições das formas que o macaco logo se apaixonou. Automóveis, ambulantes, e um zumbido constante, massageavam sua mente. Mesmo sendo tudo muito estranho, facilmente os assimilou. Entretanto, nada roubou sua atenção mais que a feira de trangênicos, nada fez flamejar seus olhos quanto “A ARTE DA GUERRA”, livro de Sun Tzu. Tamanho foi o armazenamento de dados qual teve acesso o macaco que uma náusea seguida de vômito levou-o ao chão, desmaiando-o.

A palavra “humanidade” ecoava aos seus ouvidos, o “eu” fragmentava-se, fundindo-se a tudo que o cercasse, também ao mundo paralelo que lhe era dado por meio dos óculos. “Tu és gênese da espécie humana” - apoiavam os ruídos, convergidos naquele ponto que o sustentava. ”Não seja um mero ator, ninguém tens o poder de dirigi-lo. Olhe para si, macaco capaz de forjar o próprio mundo, queira mais”.

Igualmente insaciável e subversivo, quando provou pela primeira vez bananas trangênicas sabor chocolate, o macaco pedia por mais. Algum tempo havia se passado desde o dia em que encontrara os óculos, e tua saúde, como se via, esbanjava virilidade. A postura modificou-se, num bípede ereto ele se transformou. Razão tinha de que não nascera para pular de galho em galho, sobre as folhagens das árvores, indo além do necessário à sobrevivência. Criou pra si um jogo: Partindo da premissa de que a melhor defesa seria a presunção do ataque, cercou-se de proteções e garantias que modificaram todo o território a que teve acesso, cunhando o caos seguido de ordem. Recrutava ao seu exército o animal que quisesse, bastasse um breve discurso, ou que manuseasse o fogo. Sentia-se sujeito de si, explorar e conquistar novos espaços davam sentido ao macaco de agora.

Assim o macaco de tudo se apoderou, se valendo de sua inteligência e da vulnerabilidade de seus inimigos. Livre de preocupações começou a cogitar a possibilidade de ir viver entre os humanos, pois, por um tempo cada vez mais longo observava pelos óculos o vaivém da babilônia. Convicto de que aquela espécie situava-se num futuro distante, investiu caminho diante de tal. Por meio dos óculos passou a tecer laboriosos estudos que o levasse à construção de máquinas do tempo, teletransportadores, portais mágicos. Contudo, não dispunha de tecnologia suficiente para o advento e manuseio de tais empreendimentos. Queria expor seus pensamentos, mas, ao redor, ninguém falava sua língua. Novamente estava só, perdido dentro de si, mas agora tinha plena a consciência dos fatos. Os ruídos lhe faziam companhia, porém, necessitava de mais, alguém que a ele se abrisse, que se perdessem em sentimentos, que preenchesse seu vazio.

Olhar infundado, sem foco, sem brilho, como que se estivesse a procurar algo, boca entreaberta, a mostrar parte da língua. Ademais, gotículas de saliva eram cuspidas ao acaso. Numa profusão sem fim, num frenesi desregrado, o macaco cava um buraco e nele se enterra. Antes, escrevera uma carta na qual os dizeres abominavam Charles Darwin.
E todo dia seria mãe na educação dos filhos e quando a hora chegasse, ela os brotaria.

Durante a infância desenhava nas paredes da casa onde morou com os pais a figura de uma mulher, grávida da primeira filha, ao lado do marido, e agora, de volta a casa, rememorava tudo, ao ver nas paredes a mulher que virara. E lembrou do tempo em que perdeu o primeiro dente de leite, bem como levava merendeira para a escola, e porque fazia mimo, no dia em que dividiu com o colega de classe pedaços de maçã. O colega que ela tanto pintou enquanto guria, ao lado da mulher grávida. Sentia que a cria qual hoje daria a luz também os via, de dentro da barriga, desenhados por todo o quarto.

A parteira havia chegado, rezaram uma missa, e deram lugar à arte.

Certeza tinha de que viria ao mundo uma menina que fosse como a mãe. Mas com o destino não se brinca. Pariu aos olhos um espelho, e se refletem como tal, imagem e semelhança.

Nove meses depois nasce um menino. Deu-lhe nome de Narciso e ele se apaixonou pela irmã.
Uma hora chega e você descobre que o mundo só existe aqui e agora. Frames, tic-tac, o presente, tic-tac, foge. E você descobre que seu destino é seu passado, que suas dúvidas põem em xeque o mundo ante os olhos e ainda: que seus sonhos recomendem sempre o norte. E você descobre que o lixo decorre da mente do homem, que para um grande bem é justo um grande mal, e que, palavras, devem ser evitadas. E você descobre que a história contada é só um lado da maçã, que o universo é um ser hedonista, e que Deus tempera o mundo com piadas mal contadas. Então você descobre ser uma gota de vontade num oceano em coma, uma revolta que se edifica numa travessa de angu de sangue. E você descobre ser um queijo em meio a ratos, ser um prego, inimigo do rei martelo. O interessante é que tudo isto lhe faz bem, porque você descobre. Então você volta no tempo e seu primeiro contato com o mundo se revela de cabeça pra baixo. Você não sabe o porquê e, no entanto, você chora. Você é puro instinto e ainda chora. Após o corte do cordão umbilical você será só mais um. E agora? Ah, ou você vira marinheiro ou você pula do barco. Produza, consuma, namore e se case. Constitua família, acorde com sua prole em plena madrugada, mas adote um sorriso, crie uma criança. Você aprende, você descobre, você chora, você se abraça ao fim da história.
Tomou uma pinga, comeu uma puta, chegou em casa, abraçou a mulher. A lâmpada estava queimada, a penumbra reinava, a vela foi acesa e eles ficaram bem. Logo, a cobra picou, ninguém a viu, nove meses depois um cobrinha nasceu. Era o homem, a mulher, buscavam a liberdade. Ele, então enlouqueceu. Ela, com o tambor cheio, foi praticar roleta russa. Durante o ato a lua estava cheia e decidiu nunca mais aparecer. Carentes, na boca da noite, as estrelas minguaram.
Quando Evelin percebeu o sol ainda estava frio. Era manhã de um dia qualquer, numa cidade qualquer, igual a todas as manhãs. Igual a todas as manhãs, sempre as mesmas, manhãs cheias de mudanças, sem mesquinhas novidades. É o palhaço na avenida, que agora ocupa a vaga que antes era da mulher da vida. É o nobre engravatado, em seu carro blindado, parado no sinal, que pela madrugada devia ser ignorado. É a tia dona Maria, na companhia do seu jardim, escutando das meninas flores, segredos que já sabia. Era a rua sendo travestida, maquiada conforme se exigia, aos sabores da clientela, sem mesquinhas novidades. Toda manhã era assim. Quando Evelin percebeu, o sol ainda estava frio. Era manhã de segunda-feira, numa cidade qualquer, igual a toda segunda-feira. Igual a toda segunda-feira, de volta ao trabalho, após um domingo legal com a tv desligada. Quando Evelin percebeu, repartiu a novidade.
O ar fedia, uma leve poeira a arder nas rugas da alma, na carne agonia. Um dia a menos, mais um dia malcriado. Oportunidades perdidas, trabalho era o prato que se engolia. Como doía a voz do patrão “puro sangue”. E precisava José, cavalo que era, pangaré, de um grão de areia, queria plantar, comer capim.
Metade pecado, metade castidade, pelo certo e pelo também correto, espreita, de cima do muro, espreita o gato branco, espreita pela noite escura. Na manhã seguinte será gato manso debaixo da mesa, entediado com o tempo e as horas do porvir, ainda que mostre as presas ao pássaro da gaiola, mas cá, de cima do muro, aos divertimentos tão só seus, ruge, livre dos jogos da vovó, livre das cartas marcadas sobre a mesa. Há de poder escolher, mesmo que não queira nada, mesmo que só queira equilibrar-se ante a hóstia e o desbunde do vinho, a observar alheio o descarrilar dos trilhos, na espreita do Camaleão.

Gato Branco em noite escura levou rasteira do Camaleão. Foi acordar na delegacia com cartilha na mão: “a esperteza o deixou relaxado, Gato Branco em noite escura. Sobremaneira, terá de pagar o pato, e quando as luzes se apagarem, cú do gato é o alvo”. O Gato, nada bobo, após ler a cartilha, encomendou ao carcereiro muita vaselina. As luzes se apagaram e Gato Branco em noite escura fez a festa das jibóias.
Décimo - quinto andar, tv cheia de fantasmas, janelas abertas, não há presença de pára-quedas, uma dúvida na cabeça... Ou você confia ou você enlouquece.

Respiração ofegante, o superego socando o estômago, (que estômago?) janelas abertas...

A carne sendo mastigada, sorrisos da grife “DESESPERO”, a dúvida permanece.

Tomou um chá de alpiste, agora tinha certeza, se atirou pela janela.

O pássaro voou!
Contavam uma verdade, uma mentira, ninguém sabe, pudesse ser uma partida de pôquer e talvez eles estivessem somente blefando.

- O teu dinheiro pode cobrir minha aposta, mas o dinheiro não lhe falta, por isso, não se contenta em ganhar ou perder. Existem coisas que seu dinheiro não compra.

- Pois saiba que comprei o céu, a terra, vida infinita, e suas palavras posso subornar.

- Mas o céu não lhe respeita, nem as estrelas pode precisar, não sabes pedir por chuva e o céu de amanhã você nunca saberá.

- Quer quanto pra calar a boca?

- O céu terá de me dar!
Sacou da cintura uma garrucha e um tiro no umbigo o outro levou.

- Também sou dono dessa cidade e um pedaço de terra agora lhe dou.

Na sepultura, cravada à bala, a seguinte inscrição: “Aqui o primeiro a quem doei um pedaço de terra.”.
Na estrada da madrugada, corujas se exibiam. Morcegos ensangüentados perseguiam os vampiros. Uma bandeira rasgada sentia frio. Permanecia suja e seus dizeres sobre ordem não passavam de ninharia. Gatos aleijados e pombas raquíticas sabiam: O tempo das coisas felizes não mais se permitia.

Na estrada da madrugada, putas se drogavam, nuas. Putas estampadas em notas de baixo valor e migalhas de comida. Putas que um dia sorveram do leite materno da vida.

Na estrada da madrugada, corujas, morcegos e putas ouviam os estridentes gatos e pombas que sabiam: O tempo das coisas deprimidas invadia as vinte e quatro horas do dia; e tudo e nada era só um vazio.

Na estrada da madrugada, a puta ficou grávida. Vem vindo mais uma vida pra estrada da madrugada.

Corujas, morcegos e putas são alguns dos vampiros daquela estrada. Gatos aleijados e pombas raquíticas também mendigam pela madrugada.
A noite de céu sem estrelas
Repousa sobre os olhares do dia
Quiçá descobrir o refúgio da lua
Entender Vênus na caliente luxúria

Mercúrio, na labareda cíclica, se esfarela
Marte afirma: um dia fui como a Terra
Do buraco negro eram cuspidas palavras
Devaneios de um lobo
Uivo solitário
À procura das estrelas
De ilusões tateáveis

Ele vaga na elipse
Tropeçando no vazio
Acaso o encontrem
Basta um bom dia
A noite se cumpre
De dentro do casulo

Todo quadro feio é perfeito quando perfeito for. A noção do perfeito quando os olhos ganham a flor. O feio só é feio se olhares são feios quando cheios de dor. Natureza nos olhos perfeitos, os olhos são todo o corpo na flor.

Da bromélia nascem pererecas. Brancas, estranhas, maldosas aos mosquitos. Orquídeas são as mais belas e não toquemos no assunto.

Toda ficção é igual, real. Todo real-imaginário. Toda verdade uma mentira. Teatroemente não se separam.

Não se atravessa porta sem antes olhar o céu. Não se dá bom dia a cavalos. Aqui se pregam ferraduras.
...

Toda vida se resume bela quando bela flor. Pétalas soltas ao vento bolando olor. A íris dos olhos negros cheios de cor. Espinhos levados ao vento da pétala-flor.

Da violeta fez-se um rubro vestido veludo, margaridas pelas ruas, ovos fritos são margaridas.

Toda existência é igual, diferente. Todo espelho é o outro que te reflete outro. Mas água e óleo não se embaralham.

Não se bica em cachoeira de olhos fechados. Não se banha em rio de piranha. Aqui se come rapadura.

Todo dia vence a noite. Toda noite vence o dia. Todo equilíbrio se faz cumprir.
As nuvens não se repetem ante os olhos que as descrevem ao quanto são sopradas por algum ventilador.

O dia hoje frio, claro como céu de anil concebido cinza, aconchego da nostalgia para os velhos antes dos trinta.

Efêmeros, sentimentos não o são. Não foste por o dedo na ferida seria nuvem em céu azul, mas agora serve sal.

Thel, por força do inconcebível, cunhou raízes em raízes inimigas. A nuvem o enganara, nascera pássaro, é agora alçapão.
metáfora-metonímia

Era dia, noite, dia, ar entorpecido, paisagens de uma civilização arredia em suas ilhas metonímias. Fadas, ninfas, lírios, aquarelas da fantasia, narcisos por todo o ar, seres belos de perfis gregos, valentes deuses na trama que respira, aos laços da quimera, bucólica utopia. Ao choque de duas ou mais ilhas uma nova sempre nascia, pois precisavam as metonímias transcender o que sentiam. Disparidade, muito havia. Ora, tudo era fragmento da pangéia metonímia. Figuras de estilo próprio, cada qual no seu acaso, abissal melancolia. Autores e suas obras de areias movediças, necessitam da diferença, do atrito a outra ilha. Assim avivam o “eu”, aguçam sua sina. Oh, Deus - metonímia, o todo-poderoso, senhor de cada ilha. Ensinai que o rio no mar se finda, que quando a atmosfera esquenta a gota do céu precipita e que o homem é só uma ilha a mergulhar nos confins da metáfora-metonímia.
Pormenor esclareço: são quarenta os corpos queimados na caixa, da cabeça aos pés. Segundo perícia, teria o sujeito do meio causado aborrecimento ao vizinho da direita, quando este cogitou a possibilidade de acender um cigarro. “Tire este câncer daqui”, - esbravejou. Tal vizinho, enraivecido com tamanha injúria, somado à falta do calmante nicotina, despeja um balde d’gua no agressor. Este, arrepiado, e sem toalha para se secar, resolve acender uma fogueira. A chama subiu-lhe a cabeça, fazendo-o incendiar os trinta e nove palitos de fósforos restantes.
Não conseguia prestar atenção se lhe apontavam o caminho. Eram muitos os ruídos... Cor dos cabelos, brilho dos olhos, movimento das mãos, outras informações; atiçavam sua imaginação e a roubava do foco. Duas esquinas acima e lá estava ela a escutar de alguém sobre a passagem que a elevasse aos céus. Desistiu seguir subindo, pegou um táxi, desceu numa porta qualquer. Chovia. Lágrimas de rivotril. Acalmou-se, dormiu na calçada.
Era bom
Era ruim
Era homem
Tudo vai passando
Despertam do sono as pessoas
Buzinas
Engarrafamentos
Batidas de morango no bar da esquina
Vaga-lume
Não quer luz alheia
Aspira iluminar-se
Precisa estar no escuro
O ônibus passa na rua
Maria passa a roupa
Maria está no ônibus
Quem passa o ferro são os outros

O ônibus estava lotado
Todos se esbarravam
O ônibus parou
Ninguém desceu
Vozes
Não melhores do silêncio
Ecoam pelas paredes
Mudança
Prosa muda
Enquanto dança
O nadador
Nada
A vida
O nadador
Deus sereno
Em dias de guerra
Repousa nos olhos
Daqui
Do alto do pé de caqui
Caí
Silencio no vácuo
Algo havia vazado
Habito hábito
(Arbitrário)
Passa rato
Viro gato
Cú artista
Transforma bosta
Em semiótica
Corpo,
Que se esconde
Pouco se vê do corpo
Oração de sempre
: - Bate coração!
Nós...
Cada parte de um nó cego
Debaixo do tapete, o lixo
Roubaram o tapete
Mas o lixo ninguém quis
Ia eu ia
Eu ia só
Só ia
Cheguei e não era lá
O dia amanhecera lindo
Beijou o sol
Queimou a língua
O tempo
A flacidez
Os ossos velhos
Os cachorros banguelas
Desperdício
Um edifício
Tomaram o lugar da árvore
O corpo fez-se copo
Vazio e sem fundo
A fotografia da noite refletia
Luzes acesas revelavam o homem inquieto
O dia veio matando
A noite, do outro lado, foi nascendo
Adiar
Despertador
Odiar
O dia
Desperta
Dor
A alma dança no orvalho
Fadas e mosquitos carecem de alma
Gotejou
O mosquito se afogou
A fada foi embora
Conversa de passarinhos:
- Desagradável é o senhor do alto
- Todo dia ele cospe do 15º andar
Grande
Peixe
Tubarão
Tu
Barão
Peixe
Grande
Vá nessa
Solange
Vanessa
Só longe
Nos pensamentos uma sombra
Incômodo crescente
Ela é tão melhor que eu
Sendo, iluminei-a
E a sombra desapareceu
O quente
O frio
A água banhada de sangue
Um pouco de tudo num prato raso
Pato ensopado
Desejo dela na hora do parto
Ventou
Doeu
Areia nos olhos