Thursday, November 23, 2006


A busca de si

Era apenas um óculos ao chão e, sem os olhos, sem a mente por trás dos olhos, de nada serviria. Mas ia por seu caminho um macaco, execrado do bando que pertenceste por não ter a destreza de ser como os demais e equilibrar sobre as árvores. Ia, tropeçando pelas pedras e outros objetos avessos à realidade que outrora vivesse. Vagava e só. Invadia-o algo estranho, que lhe roubava o instinto e pavor causava; não sabia o que era, não tinha consciência de si. Às vezes dirigia os olhares ao céu, nem um deus que lhe forjasse identidade, no entanto, num desses momentos, ao voltar de devaneios, o óculos encontrou. Examinou-o com as mãos, buscou sentir seu cheiro e novamente deixou-o ao chão. Naquele instante a noite se fez, recostou próximo aos óculos e dormiu.

Na manhã seguinte acordara ao sol, há muito não caçava, de modo que começava a fraquejar. Tentou firmar as pernas e um filete de sangue surgiu junto à virilha. Ferido, e sentia que a hora chegava, morreria caso nada de comer encontrasse, e presa fácil era, bastasse o animal que fosse cruzar teu caminho. Os raios solares incidiam sobre os óculos e toda aquela luminosidade refletora criou gosto na mente do macaco, um desejo original, sem precedentes. Com o apoio das mãos o vestiu: luz, muita luz, imagens, informação. Um novo mundo passou a ser permitido e tanto eram as disposições das formas que o macaco logo se apaixonou. Automóveis, ambulantes, e um zumbido constante, massageavam sua mente. Mesmo sendo tudo muito estranho, facilmente os assimilou. Entretanto, nada roubou sua atenção mais que a feira de trangênicos, nada fez flamejar seus olhos quanto “A ARTE DA GUERRA”, livro de Sun Tzu. Tamanho foi o armazenamento de dados qual teve acesso o macaco que uma náusea seguida de vômito levou-o ao chão, desmaiando-o.

A palavra “humanidade” ecoava aos seus ouvidos, o “eu” fragmentava-se, fundindo-se a tudo que o cercasse, também ao mundo paralelo que lhe era dado por meio dos óculos. “Tu és gênese da espécie humana” - apoiavam os ruídos, convergidos naquele ponto que o sustentava. ”Não seja um mero ator, ninguém tens o poder de dirigi-lo. Olhe para si, macaco capaz de forjar o próprio mundo, queira mais”.

Igualmente insaciável e subversivo, quando provou pela primeira vez bananas trangênicas sabor chocolate, o macaco pedia por mais. Algum tempo havia se passado desde o dia em que encontrara os óculos, e tua saúde, como se via, esbanjava virilidade. A postura modificou-se, num bípede ereto ele se transformou. Razão tinha de que não nascera para pular de galho em galho, sobre as folhagens das árvores, indo além do necessário à sobrevivência. Criou pra si um jogo: Partindo da premissa de que a melhor defesa seria a presunção do ataque, cercou-se de proteções e garantias que modificaram todo o território a que teve acesso, cunhando o caos seguido de ordem. Recrutava ao seu exército o animal que quisesse, bastasse um breve discurso, ou que manuseasse o fogo. Sentia-se sujeito de si, explorar e conquistar novos espaços davam sentido ao macaco de agora.

Assim o macaco de tudo se apoderou, se valendo de sua inteligência e da vulnerabilidade de seus inimigos. Livre de preocupações começou a cogitar a possibilidade de ir viver entre os humanos, pois, por um tempo cada vez mais longo observava pelos óculos o vaivém da babilônia. Convicto de que aquela espécie situava-se num futuro distante, investiu caminho diante de tal. Por meio dos óculos passou a tecer laboriosos estudos que o levasse à construção de máquinas do tempo, teletransportadores, portais mágicos. Contudo, não dispunha de tecnologia suficiente para o advento e manuseio de tais empreendimentos. Queria expor seus pensamentos, mas, ao redor, ninguém falava sua língua. Novamente estava só, perdido dentro de si, mas agora tinha plena a consciência dos fatos. Os ruídos lhe faziam companhia, porém, necessitava de mais, alguém que a ele se abrisse, que se perdessem em sentimentos, que preenchesse seu vazio.

Olhar infundado, sem foco, sem brilho, como que se estivesse a procurar algo, boca entreaberta, a mostrar parte da língua. Ademais, gotículas de saliva eram cuspidas ao acaso. Numa profusão sem fim, num frenesi desregrado, o macaco cava um buraco e nele se enterra. Antes, escrevera uma carta na qual os dizeres abominavam Charles Darwin.

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