Thursday, December 28, 2006

Diagnosticaram gota
O homem comprou um guarda-chuva
A mulher correu a uma farmácia

Sunday, December 17, 2006

Quando o homem fez-se fruto, a terra cuspiu amarga.
Cuidado aos ouvidos
Falar hoje em dia se tornou coisa complicada. Não digo aqui de “fala” rebuscada, linguagem bem elaborada, encontrada nos bares e boêmia, encontrada em dicionários, nas praças, reduto de mendigos. Falar hoje em dia requer um advogado.
O orangotango processou seu dono, por tê-lo chamado de macaco, o peixe, quem o denominou piranha. Ainda não chegou, mas a tartaruga também encaminhou seu pedido. Não agüenta mais ser tratada de burocracia. Demorou, mas hoje em dia nossa lei não hesita. Falar, só o que ela permite.
E você não se assuste se amanhã ou depois fores acionado na justiça por um pernilongo, a reclamar ter sido agredido em plena transfusão de sangue. Sobre seus direitos, espere até que um papagaio o xingue. Mas se certifique, pois não existe em lei pena prevista aos animais.

Saturday, December 16, 2006

Na sola dos pés dela, um olhar. E o chão foi ficando melhor.
A vingança é um prato que se come todos os dias.

Tuesday, December 12, 2006

“Leve a vida leve”

Se me pedisse por emprego ou ocupação, a ela daria meus cartões de crédito. “Maria, sou seu cão”. “Porque a vida é agora”, “Para você fazer a viagem perfeita” “Não lhe falta mais nada”, “Ter tudo o que você deseja”. “Porque a vida é agora”.
Sei que existem coisas que o dinheiro não compra, como também sei que para todas as outras existe algo dando sopa em algum de meus bolsos, frios por não terem o contato de suas mãos (sensíveis ao cloro, água sanitária, sabão). Maria, minha ex-empregada de avental. Volte pro lado de cá. Faça, desfaça, tão somente minha cama, minha barba, meu tesão, minhas esquisitices afloradas se te vejo com espanador e pose. “Muito mais vantagens para você”. Posso tudo lhe comprar. “Ter você não tem preço”. Quando a fatura dos cartões chegarem, você já terá sido minha.
...Existem coisas que o dinheiro não compra. Para todas as outras, finja ter dinheiro. Maria, hoje vamos voar! Azar do (s) banco (s).

Sunday, December 10, 2006

Menininha

Quisera ser princesa ou grã-fina, mas nasceu Menininha, maçã de carne, de pecado, mais um fruto do Estado. Menininha, que os olhos do mundo só fazem comer. Comer e cuspir. E comer. Menininha dada aos desabafos, aos bafos, aos sem desodorantes, sem casas, sem camas. Menininha piranha. Dada ao dinheiro, às pratas de centavo, ao pão da padaria. Menininha. Que no barraco a esperam irmãos, mãe, filhos, o marido desempregado que a evita olhar na cara. Tem vergonha da panela vazia, de ser homem e inválido, “meninin” de Menininha. Que todo dia bate ponto na esquina do Acaso, caída num mundo errado, leitura de um livro errado, de autor equivocado, que nunca leu contos de fada. Mas hoje a sorte lhe sorri -, Menininha. Não em pedido de que levante a saia, rasgada, com buracos de traça, raça, qual a sua? Basta que conte sua história e o estranho vai embora, enchendo Menininha de dinheiro, caso goste de suas palavras. -Tarefa fácil quando o que satisfaz é sofrimento. E Menininha vai pra casa (pro barraco), voando baixo, como pássaro, canta, Menininha. Comprou carne, frauda descartável, um perfume de nome Liberdade. Presenteou a todos, Menininha, que agora se lava, banho frio, de cavalo, quando tem água, cansada, deita-se, perfumada, ao lado do marido. Dorme escassas horas. Acorda, acorda na esquina para mais um dia de serviços. Dessa vez não encontra pelo estranho.
...Levanta a saia e finge que gosta, finge e vai à padaria, Menininha, em mais um dia de folia. Capítulo de hoje: “O dinheiro só deu pro pão dormido.”.

Saturday, December 09, 2006

Não se cria um impasse quando o "certo e o errado" afirmam estar corretos.

Friday, December 08, 2006

E como sabia ser o silêncio ambíguo, haveria de permanecer calado. Bastou perder a língua.
Basta a gravidade para que tudo caia

Saturday, December 02, 2006

O crítico ante o espelho diz:
- que merda de espelho.
Só a mente
Mente
Somente
Mente
Primeira semente
Mulheres ao pai
Ao filho
Ao espírito santo
Todos santos do pau dentro
Espaço
Ao passo descompasso
Sobrancelha
Sobre os olhos
Na paisagem sem sombra
Sobra sol