Menininha
Quisera ser princesa ou grã-fina, mas nasceu Menininha, maçã de carne, de pecado, mais um fruto do Estado. Menininha, que os olhos do mundo só fazem comer. Comer e cuspir. E comer. Menininha dada aos desabafos, aos bafos, aos sem desodorantes, sem casas, sem camas. Menininha piranha. Dada ao dinheiro, às pratas de centavo, ao pão da padaria. Menininha. Que no barraco a esperam irmãos, mãe, filhos, o marido desempregado que a evita olhar na cara. Tem vergonha da panela vazia, de ser homem e inválido, “meninin” de Menininha. Que todo dia bate ponto na esquina do Acaso, caída num mundo errado, leitura de um livro errado, de autor equivocado, que nunca leu contos de fada. Mas hoje a sorte lhe sorri -, Menininha. Não em pedido de que levante a saia, rasgada, com buracos de traça, raça, qual a sua? Basta que conte sua história e o estranho vai embora, enchendo Menininha de dinheiro, caso goste de suas palavras. -Tarefa fácil quando o que satisfaz é sofrimento. E Menininha vai pra casa (pro barraco), voando baixo, como pássaro, canta, Menininha. Comprou carne, frauda descartável, um perfume de nome Liberdade. Presenteou a todos, Menininha, que agora se lava, banho frio, de cavalo, quando tem água, cansada, deita-se, perfumada, ao lado do marido. Dorme escassas horas. Acorda, acorda na esquina para mais um dia de serviços. Dessa vez não encontra pelo estranho.
...Levanta a saia e finge que gosta, finge e vai à padaria, Menininha, em mais um dia de folia. Capítulo de hoje: “O dinheiro só deu pro pão dormido.”.
...Levanta a saia e finge que gosta, finge e vai à padaria, Menininha, em mais um dia de folia. Capítulo de hoje: “O dinheiro só deu pro pão dormido.”.

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